domingo, 12 de outubro de 2025

O Segundo Cavaleiro - A Peste





Para compreender melhor o relato sobre as crise no fim da Idade Média veja a parte I aqui e a parte II aqui.

Uma velha conhecida

Império Bizantino em 555 d.C.


    A Peste Negra já havia feito sua passagem anteriormente — conhecida como a Peste de Justiniano — e atingiu em cheio o Império Bizantino, com Constantinopla como epicentro da tragédia. Provavelmente uma forma de peste bubônica, transmitida por pulgas de ratos, ela matou uma grande parte da população e voltou em ondas nos séculos seguintes. Além do impacto humano devastador, a praga enfraqueceu o Império politicamente e economicamente, matando entre 25% e 50% da população do Império (entre 25 a 50 milhões de pessoas) começou em 541 com o primeiro surto durando cerca de 7 a 10 anos, mas retornou em ondas intermitentes que se estenderam até 750, mantendo seu impacto sobre a população e a política por mais de dois séculos.
   O primeiro registro conhecido da doença vem do historiador grego Procópio, que relata que os primeiros casos surgiram na cidade de Pelúsio ou na cidade Clysma, ambas no Egito. Ao que tudo indica a doença se espalhou pela rota comercial marítima entre Egito e Constantinopla.
Esse percurso inicial da peste demonstra como as rotas comerciais e portos do Mediterrâneo serviam de corredores para a propagação de doenças, conectando regiões distantes e expondo cidades densamente povoadas a surtos devastadores.
    Foi seguida por surtos durante mais de 200 anos na Ásia, no Norte da África e na Europa, matando um total estimado de 25 e 50 milhões de pessoas; a nova onda da Peste Negra, originada na China em 1334, chegou à Europa em 1347, supostamente matando de um quarto a um terço de toda a população europeia.

Quando o Oriente enviou (novamente) o seu fardo


Propagação da pandemia entre 1346-1353


    De volta ao século XIV, quando as colheitas voltaram a brotar e os campos recuperaram lentamente sua cor, parecia que a Europa enfim poderia respirar. A fome recuava, mas deixava atrás de si uma geração marcada pelo medo e pela fragilidade. Os corpos magros haviam sobrevivido, mas os espíritos estavam exaustos. E foi nesse solo de cansaço e esperança que um novo flagelo germinou — invisível, silencioso, trazido pelos ventos do Oriente e pelos navios do comércio. Se a fome havia revelado o quanto o homem dependia da terra, a próxima provação viria lembrar que a vida, frágil como o pó dos mortos, podia ser rompida a qualquer sopro divino.
    Assim como as ondas de fome, as doenças eram companheiras constantes do cotidiano medieval europeu. O crescimento urbano — impulsionado pelo comércio e pela ascensão da burguesia entre os séculos XI e XIII — transformou as cidades em centros vibrantes de economia e cultura, mas também em terreno fértil para a propagação de doenças. E é nesse cenário que rumores de navios amaldiçoados, portos onde homens caíam antes de tocar terra firme começaram a assombrar novamente a Europa.
    Em 1348 o cronista Gabriele de' Mussi em seu "História da Doença, ou a Grande Morte que ocorreu no Ano de Nosso Senhor de 1348" relata que durante o cerco de Caffa foram lançados corpos contaminados pelos muros da cidade sitiada em 1346 com o objetivo de, ao contaminar a resistência, conseguissem a vitória. E ainda "...entre os que escaparam de Caffa de barco, havia alguns marinheiros infectados com a doença venenosa. Alguns barcos tinham como destino Gênova, outros iam para Veneza e outras regiões cristãs. Quando os marinheiros chegavam a esses lugares e se misturavam com as pessoas de lá, era como se tivessem trazido espíritos malignos consigo: cada cidade, cada povoado, cada lugar era envenenado pela peste contagiosa...". A ideia de que esse ataque biológico tenha sido o responsável pela propagação da doença é debatida pois existem novas evidências quanto à origem geográfica da pandemia no velho continente.
      Há estudos que descartam a hipótese de Caffa e atribuem a disseminação ao comércio de grãos do Mar Negro após o ataque da Horda Dourada. Essa foi uma das quatro divisões do Império Mongol após a morte de Gêngis Khan, governada pelos descendentes de Batu Khan, seu neto. Também são considerados focos entre roedores remanescentes da Praga de Justiniano. Pessoalmente, considero que a entrada da peste na Europa resultou de uma combinação de fatores — nenhum deles pode ser descartado.

A anatomia da praga

Iluminura de 1411 - Bíblia de Toggenburg


    Apesar de a imagem mais conhecida ser a do enfermo coberto por inchaços arroxeados nos gânglios linfáticos — os temidos bubões —, a peste se manifestava de três formas distintas: bubônica, pneumônica e septicêmica, todas causadas pela mesma bactéria, Yersinia pestis. A primeira é a mais emblemática, aquela que marcou o imaginário coletivo, mas as três compartilhavam algo em comum: a rapidez com que transformavam febre em agonia e a vida em lembrança.
  • Bubônica: Transmitida pela picada da pulga infectada (geralmente do rato-preto) e piolhos humanos. Seus sintomas incluem febre alta, calafrios, dor de cabeça, fadiga e os bubões — inchaços dolorosos nos gânglios linfáticos (axilas, pescoço, virilha).
  • Pneumônica: Quando a bactéria atinge os pulmões, podendo ser transmitida pelo ar entre pessoas. Acelerou a propagação pela Europa. Seus sintomas incluem tosse com sangue, febre altíssima, dor no peito e falta de ar.
  • Septicêmica: A bactéria invade diretamente a corrente sanguínea, às vezes sem formação de bubões. Seus sintomas incluem febre súbita, sangramentos sob a pele (manchas negras), necrose das extremidades, colapso circulatório. É fatal em 100% dos casos
    A Yersinia pestis circulava originalmente entre populações de roedores selvagens na Ásia Central. Quando esses animais morriam, as pulgas infectadas buscavam novos hospedeiros — primeiro ratos domésticos, depois seres humanos. Nas cidades medievais, com ruas imundas e armazéns cheios de grãos, o ambiente era perfeito para que os ratos se multiplicassem e as pulgas se espalhassem. Cada navio mercante carregava, sem saber, um pequeno exército invisível de vetores.
    Na época, porém, ninguém compreendia esse ciclo mortal. As explicações médicas ainda se baseavam na teoria dos quatro humores — sangue, fleuma, bile amarela e bile negra —, e acreditava-se que a peste surgia quando o equilíbrio entre eles era rompido por influências externas, como os chamados “ares pestilentos”. Médicos e estudiosos observavam os astros e o clima, atribuindo surtos a conjunções planetárias desfavoráveis ou à corrupção do ar. A ideia de contágio direto era incipiente, e a noção de microrganismos invisíveis estava muito distante.
    De acordo com a pesquisadora em epidemiologia Katharine R. Dean em sua dissertação de mestrado de 2015 "...um modelo de transmissão da peste bubônica por piolhos se ajusta ao padrão de transmissão da peste dentro das cidades durante a Peste Negra, no que diz respeito à duração da epidemia e à distribuição de mortes durante uma epidemia, e que a peste pneumônica primária pode produzir epidemias em larga escala, mas apenas em condições altamente favoráveis ​​a esse modo de transmissão."
    Se a fome cavalgava sobre o cavalo negro, a peste surgia como o Cavaleiro Pálido — a Morte em pessoa, atravessando fronteiras e reinos sem distinção, lembrando aos homens que nenhum muro, fé ou ciência poderia contê-la.
    
 

Seguindo o rastro da morte

Dança da Morte, Guyot Marchant, 1486


    Se espalhando inicialmente pelos portos do Mediterrâneo, logo alcançou os territórios franceses, a ordem que sustentava o medievo começou a ruir — costumes, leis e hierarquias desmoronavam diante de um inimigo invisível. Os ricos conseguiam fugir das cidades infectadas para a segurança do campo, como retrata Boccaccio no Decameron, onde jovens abastados deixam Florença para escapar da peste. Mas a riqueza não garantia imunidade nem à doença, nem ao trauma de sobreviver. A doença matava tanto pobre quanto ricos. Tanto o guerreiro quanto o padre. Pessoas do campo e da cidade. Até a realeza não parecia imune se lembrarmos que a filha de Eduardo III da Inglaterra sucumbiu em 1348. Nesse contexto, surge a expressão artística da “Dança Macabra” ou “Dança da Morte”, uma alegoria artístico-literária que representa a universalidade da morte. A obra transmite a ideia de que, independentemente do status ou riqueza de alguém em vida, todos são finalmente unidos na mesma dança inexorável.
    A pandemia da Peste Negra representou uma ruptura profunda que remodelou a economia, a sociedade e a própria visão de mundo na Europa medieval. Em seu impacto imediato, ela provocou uma explosão de fervor religioso: multiplicaram-se os presságios do fim dos tempos, surgiram movimentos penitenciais que desafiavam a autoridade do clero, e espalharam-se ondas de perseguição contra comunidades judaicas, vistas como bode expiatório de uma tragédia que ninguém compreendia.
    No contexto científico a Grande Mortalidade deixou evidente que a doença não resultava de alinhamentos astrais ou castigos divinos, mas de um contágio real e transmissível. Em resposta, os médicos começaram a adotar uma abordagem mais empírica, baseada na observação e na experiência, lançando, assim, as bases distantes da Revolução Científica. As quarentenas surgiram como expressão prática desse novo empirismo e do distanciamento social instintivo das famílias médias e da elite europeia. A primeira delas foi estabelecida em 1377, no porto de Ragussa, no Adriático, marcando o início de medidas sistemáticas de prevenção em face de epidemias.
    Esse período abalou profundamente a religiosidade medieval. Para muitos, o flagelo parecia um castigo divino, despertando medo e culpa, e levando multidões a buscar remissão através de orações, procissões e autoflagelação. Mas, ao mesmo tempo, a incapacidade da Igreja de conter a morte e explicar o sofrimento provocou crises de fé: padres, monges e bispos também adoeciam (com uma taxa de mortalidade de até 45%), e o povo começou a questionar a autoridade e a eficácia das instituições religiosas tradicionais. Entre o temor e a descrença, a experiência da peste expôs a fragilidade da espiritualidade humana diante de um mal que não podia ser controlado, abalando crenças que até então pareciam sólidos.
    Não há consenso sobre o número de mortes ao fim de seu primeiro ciclo, entre 1347 e 1353. Os resultados dos estudos na área variam de um terço, metade e até dois terços da população europeia. Não foi apenas uma catástrofe, mas um divisor de águas. Ao espalhar morte e medo, abalou a fé, transformou hábitos sociais, impulsionou a observação empírica na medicina e inspirou a arte a refletir sobre a universalidade da morte. A Europa medieval nunca mais seria a mesma.
A Peste Negra retornou em surtos sucessivos — 1361, 1369, anos 1370 e 1390 — menos letais, mas ainda devastadores. A pandemia prolongada matou grande parte da população europeia e causou profundas mudanças sociais, políticas e demográfica.
                        
                

Quando a sombra encontra a espada




    Enquanto a sombra invisível da morte percorria cidades e campos, ceifando vidas com uma rapidez cruel, outro mal se anunciava nos horizontes da Europa. O embate das espadas, o estrondo das lanças e o bater dos tambores de guerra cortavam o silêncio com a mesma inevitabilidade que a própria peste. Revoltas e conflitos se espalhavam como fogo, e ninguém podia se considerar seguro — nem camponeses, nem reis. Era como se a própria Europa tivesse sido condenada a enfrentar dois flagelos ao mesmo tempo, e o futuro se tornava um terreno incerto, onde cada passo podia ser o último.