sábado, 11 de fevereiro de 2023

A Invenção do kilt

Os mitos nacionalistas aparecem em diferentes partes do mundo, evocando perspectivas que visam validar a narrativa de um povo, nação ou Estado conferindo legitimidade e/ou exaltando um passado glorioso – pronto para ser resgatado sempre que necessário. Seja com Rômulo e Remo (Roma) ou o mito do “Tiradentes, líder republicano e separatista” (Brasil) ou a padeira de Aljubarrota (Portugal). Além de fortalecer e reforçar a identidade nacional ou pautas populares, essas histórias – habitualmente exageradas – servem também para legitimar guerras por disputas de territórios “ancestrais”, extermínio de grupos étnico-religiosos e ideológicos, movimentos separatistas, reivindicação de posses de recursos naturais etc. Claro que recortes em cima desses mitos podem ser feitos para aproveitar somente uma característica ou realçar uma visão mais aproveitável para a narrativa. E além de recortes, pode-se criar do zero uma narrativa que satisfaça uma necessidade. Hoje nosso assunto é o "resgate" da cultura escocesa.
De forma resumida, a Escócia ao longo de sua formação sofreu influência de alguns povos e podemos destacar: a Irlanda celta (através da migração direta proporcionada pela proximidade geográfica), a Noruega (que ocupou a Ilha de Man e as Hébridas) e obviamente Inglaterra (que a anexou em 1707). A zona chamada Terras Altas fica na parte montanhosa ao norte da Escócia e é considerado o berço da história escocesa.
Porém a emancipação das influências externas e desenvolvimento de uma cultura própria se iniciam no Século XVIII rompendo culturalmente com a Irlanda e reescrevendo sua história primitiva, conferindo maior destaque à Escócia como origem da civilização céltica; em um segundo momento elabora novos costumes rotulados como originais e antigas; e por fim a dispersão desses costumes às terras Baixas (parte sul e leste da Escócia). Esse movimento em três partes deve muito à divulgação de James Macpherson (escritor e político escocês) e John Macpherson (ministro escocês) e, apesar dos nomes, não eram parentes. Os dois Macpherson trabalharam na obra The Poems of Ossian – coleção épica de poemas atribuída ao bardo Ossian no Século III – equiparando seu autor a Homero! Posteriormente foi debatida a autenticidade do material e concluiu-se que eram poemas alterados ou até mesmo forjados. Mesmo assim sua influência duraria décadas e não ficou restrito à literatura.
Do Livro Under many flags, ou, Stories of Scottish adventurers, 1896.

A representação acima já habita a memória coletiva como um evento histórico definido: os membros de clãs escoceses das Terras Altas sempre usaram kilts diferentes entre si pelo padrão quadriculado que cada um trazia (o tartan). Essa figura reforça a ancestralidade da coesão e divisão social escocesa como construção histórica social, mas está parcialmente equivocada. Parcialmente porque essa tradição é mais moderna do que se imagina.
O atual desenho do kilt – ou philibeg – tem como inspiração o grande kilt – ou filleadh mòr – que era uma peça de corpo inteiro presa no usuário por um cinto na cintura.  Além do grande kilt os escoceses faziam uso de trews - roupas masculinas para perna e abdomen - mantos, boinas. A padronização quadriculada remete mais à regiões e status social do que à clãs.

          Soldados escoceses a serviço de Gustavus Adolphus (1631)


Por volta da década de 1720, foi adaptado quando trabalhadores das Terras Altas foram contratados para trabalhar no ramo de forja e fundição alimentando-a de madeira para os fornos. De forma a tornar a indumentária mais leve para a atividade pesada, o dono da indústria Thomas Rawlinson – inglês, quaker e industrial – orienta que a vestimenta tenha sua parte superior separada e a restante, plissada. Pela praticidade, o uso espalhou-se por toda a região tornando-se popular entre a classe trabalhadora.
Dado o fim do levante jacobita (1745/46) – revoluções que pretendiam elevar a dinastia Stuart aos tronos da Inglaterra e Escócia – que  o governo inglês decide reprimir qualquer aspecto do estilo de vida montanhês incluindo suas vestimentas. Os kilts, tartans e até a gaita de foles foram totalmente esquecidas... até o fim do Século XVIII quando são resgatados por novos nobres das Terras Altas na busca por obter legitimidade através da (falsa) ancestralidade celta aliada com o movimento romântico crescente na Europa que buscava uma nova interpretação do primitivo, do selvagem habitante da Caledônia. A volta do kilt foi impulsionada também pela criação do regimento das Terras Altas - que acabaram por adotar o sistemas de tartans como entendido atualmente.
Ilustração do Século XVI

Ilustração do Século XVIII

Hoje o kilt permanece símbolo de identidade nacional e é usada por cidadãos escoceses e de outros países, como a Inglaterra.



As fontes usadas para esse texto se encontram: