Quando o Céu Mudou
Entre os séculos X e XIII, a Europa se beneficiou de um período de clima relativamente ameno na região do Atlântico Norte, o que favoreceu o aumento da produção de alimentos. Esse crescimento também foi impulsionado por inovações tecnológicas, como os moinhos de vento, o arado de roda e o sistema trienal de rotação de culturas. Como resultado, a população europeia cresceu significativamente (segundo estatísticas trazidas por Le Goff, a população na Europa saltou de 22,6 milhões, no ano 600, para 54,4 milhões, em 1348, pois os agricultores conseguiram extrair mais recursos do solo, enquanto o desmatamento e a drenagem de pântanos permitiram a expansão de extensas áreas destinadas ao cultivo.
No entanto, a partir de aproximadamente 1300, a Europa passou a enfrentar um período de resfriamento climático conhecido como Pequena Idade do Gelo. Essa transformação lenta, mas impactante, alterou os padrões de cultivo e precipitação em várias regiões do continente. Em 1315, a mudança deixou de ser uma ocorrência quase imperceptível para se tornar uma tragédia: chuvas incessantes arruinaram plantações, os grãos apodreceram nos campos e o feno para o gado desapareceu. O resultado foi uma crise alimentar de proporções continentais, que perdurou até meados da década de 1320, ceifando milhares de vidas e fragilizando sociedades inteiras. Seria o primeiro dos Cavaleiros a cavalgar sobre a Europa — a Fome.
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| Estimativas de variação de temperatura entre os anos 1.000 e 2000 |
E eis o Cavalo Preto - Uma Medida de Trigo por um Denário
O motivo para esse fenômeno aponta para uma
soma de eventos que agiram em conjunto: a diminuição da atividade das
manchas solares reduziu a radiação solar, contribuindo para o resfriamento da
Terra; a Oscilação do Atlântico Norte alterou padrões climáticos, afetando a
distribuição de umidade e frio na Europa; grandes erupções vulcânicas lançaram
cinzas na atmosfera, bloqueando a luz solar e diminuindo as temperaturas,
intensificando os efeitos do resfriamento global.
No norte da Europa continental e na
Inglaterra, o ciclo agrícola medieval era marcado pela realização de duas
colheitas principais ao longo do ano: a primeira, conhecida como colheita
de trigo de inverno, ocorria na primavera. Nessa época, eram colhidas as
plantas que haviam sido semeadas no outono anterior, aproveitando o crescimento
lento durante o inverno. Já a segunda colheita acontecia no outono e envolvia
as culturas plantadas na primavera, completando assim o calendário agrícola
anual.
As atividades agrícolas seguiam um ritmo
constante, determinado não apenas pelas estações do ano, mas também pelas
condições climáticas locais. As tarefas rotineiras incluíam arar, gradar,
semear, capinar, colher e armazenar cereais, além do pastoreio de rebanhos e da
manutenção de eclusas e outros sistemas de manejo de água.
Entretanto, o trabalho no campo era frequentemente desafiado por fatores climáticos adversos. Registros datados de 1316 revelam, por exemplo, que os agricultores enfrentaram sérias dificuldades durante três semanas consecutivas do verão e outono, período crucial para a colheita. Nesse intervalo, foi impossível utilizar carroças ou qualquer meio de transporte com rodas, devido ao excesso de lama nas estradas. Esse obstáculo foi atribuído ao clima extremamente chuvoso daquele ano, que afetou não só a mobilidade, mas também possivelmente o sucesso da colheita em si.
Entre os anos de 1315 e 1317, a Europa enfrentou uma das mais severas crises alimentares da Idade Média: a Grande Fome. Esse evento catastrófico não apenas comprometeu a produção agrícola, mas também desencadeou uma onda de instabilidade social e política em diversas regiões do continente. Com a escassez generalizada, os preços dos alimentos básicos — como trigo, cevada, aveia, pão — dispararam. Mesmo quando disponíveis, esses produtos tornaram-se inacessíveis para grande parte da população. O desespero foi tamanho que muitos recorreram a medidas extremas: houve registros de abandono de crianças, roubos, assassinatos e até relatos de pessoas se alimentando de cães, cavalos e rumores de canibalismo. Não é de se espantar que histórias como a de ‘João e Maria’, com a casa de doces usada para atrair crianças, ressoassem tanto nesse período — elas espelhavam, em forma de conto, os medos e a fome que rondavam famílias e vilarejos.
A fome não fez distinção de classe. Desde camponeses até nobres, todos foram afetados. Durante o rigoroso inverno de 1315 para 1316, a crise atingiu seu ápice. Incapazes de esperar pela próxima colheita, muitos agricultores consumiram as sementes reservadas para o plantio da primavera, comprometendo a safra seguinte e aprofundando ainda mais o ciclo de escassez.
A situação também devastou a pecuária. Bovinos e ovinos começaram a morrer em razão do frio intenso e das pastagens alagadas e lamacentas. Como solução emergencial, alguns agricultores optaram por substituir esses rebanhos pela criação de suínos, espécie menos suscetível a doenças. Contudo, essa alternativa ofereceu apenas alívio temporário. A conservação da carne, por exemplo, tornou-se inviável devido à queda na produção de sal, essencial para o armazenamento de alimentos. Esse problema foi agravado pelas chuvas torrenciais, que afetaram as salinas. A Crônica de Somer, escrita à época, relata: "Houve uma inundação tão grande na França, no ano de 1315, que por um período de dois anos ela destruiu a produção de sal."
Tanto os governos quanto indivíduos da época buscaram maneiras de atenuar a crise e aliviar o sofrimento da população, adotando medidas como o controle de preços e a importação de alimentos das regiões do sul da Europa como a intensificação da lei Assize of Bread and Ale - uma lei medieval inglesa que regulava o preço, peso e qualidade do pão e da cerveja fabricados e vendidos em cidades, vilas e aldeias.
A Marcha da Escassez e do Desespero
Os efeitos humanos dessas condições climáticas e agrícolas adversas foram profundos, manifestando-se de forma física, emocional e econômica. Entre 1315 e 1322, a queda na produtividade agrícola — variando de um quarto a um terço, dependendo do tipo de cereal — impactou drasticamente a subsistência das populações, com o trigo apresentando os piores resultados em comparação à cevada, aveia e centeio. Essa redução, somada à insuficiência dos métodos medievais de armazenamento para enfrentar falhas de safra consecutivas, provocou escassez generalizada, elevação dos preços e, consequentemente, uma drástica redução no consumo alimentar, levando à subnutrição e a doenças associadas. A produção de uvas e, por extensão, de vinho, também foi severamente afetada, especialmente na França e na Alemanha Ocidental, devido a doenças causadas pelo excesso de umidade. Adicionalmente, registraram-se quedas na produção de leguminosas, frutas, mel, cera e derivados de leite, em parte devido a doenças que afetaram os animais domésticos, agravando ainda mais a crise alimentar e econômica enfrentada pela população medieval.
Após anos de escassez e desespero, a Europa finalmente viu suas colheitas se restabelecerem ao longo da década de 1320. Campos antes lamacentos e repletos de grãos podres voltaram a produzir trigo, cevada e aveia em quantidade suficiente para alimentar a população. A fome extrema recuou, e um senso provisório de segurança começou a se espalhar entre camponeses e nobres.
O fim da colheita não significou o fim do sofrimento. A Grande Fome deixou atrás de si uma Europa abatida, com sobreviventes enfraquecidos pela subnutrição e devastados pelo trauma de anos de escassez. As sementes consumidas no desespero não gerariam pão; os rebanhos dizimados não voltariam tão cedo aos campos; e a confiança nas instituições — tanto seculares quanto religiosas — havia sido corroída pela impotência diante da calamidade. O custo humano da fome foi substancial; historiadores estimam que entre 10% e 25% da população em muitas cidades e vilas sucumbiu aos seus efeitos.
Esse golpe inicial não foi apenas um desastre isolado, mas a abertura de uma ferida profunda. Enfraquecida, a população se tornava presa fácil para doenças e desordens que logo iriam se espalhar pelo continente. Assim, quando a Fome desmontou do seu cavalo negro, o terreno já estava preparado para que outro Cavaleiro se aproximasse com passos ainda mais implacáveis: a Peste.

