quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Benedic mihi, sancte canis ou o cão nosso de cada dia.

    Os seres humanos têm se fascinado pelos animais e pelos seus atributos desde sempre. São fontes de inspiração, admiração, medo e reverência para as diversas culturas e civilizações que habitam o planeta. Não é de se estranhar, portanto, que muitas religiões e mitologias tenham criado divindades com características ou formas animais, ou que se transformam em animais. Essas divindades zoomórficas (com forma de animais) revelam aspectos importantes da relação entre espécies, bem como da visão de mundo e dos valores de cada povo, como os antigos egípcios, maias, hindus.

Ganesha

Anubis

Quetzalcoatl


    Tal fenômeno também ocorre, mesmo em menor frequência, no cristianismo. Como exemplos temos a pomba do Espírito Santo, a expressão "Cordeiro de Deus" ou "Leão de Judá". Entretanto por ser declaradamente monoteísta, o cristianismo nega em sua base outros deuses - zoomórficos ou não - o que não impede que seus seguidores adotem posturas diversas como veremos a seguir.

Quem é o bom menino?

    O cenário era o século XIII e a Igreja católica já havia iniciado os movimentos de Cruzadas, diversificou suas ordens religiosas com a criação das ordens mendicantes no combate às heresias e fortalecimento de suas bases para se contrapor ao surgimentos dos cátaros e valdenses, a Inquisição era uma realidade e sua vigilância era constante. Um dos primeiros inquisidores, Étienne de Bourbon, atuava na França como pregador geral e historiador de heresias medievais com a maior coleção de anedotas usadas nas pregações como régua moral. Em um tratado sobre superstições ele relata o culto a São Guinefort em Lyon e o denuncia como idolatria.


    Em resumo: São Guinefort foi um galgo que viveu no século 13 na França. Ele pertencia a um cavaleiro que o deixou cuidando de seu filho bebê enquanto saía para caçar. Quando voltou, encontrou o berço revirado e o cão com sangue na boca. Pensando que ele havia devorado o bebê, o cavaleiro o matou com sua espada. Mas logo descobriu que o bebê estava vivo e que o sangue era de uma cobra venenosa que o cão havia matado para protegê-lo. Arrependido, o cavaleiro enterrou o cão em um poço e plantou um bosque ao redor, fazendo um santuário em sua homenagem. Os camponeses da região começaram a visitar o local honrando o cão como um mártir e, buscando intercessão divina, "santificaram" o animal. 


    E Bourbon encerra "Fomos a este lugar, reunimos todas as pessoas da propriedade e pregamos contra tudo o que havia sido dito. Desenterrámos o cão morto e cortamos e queimamos a madeira sagrada, juntamente com os restos mortais do cão. E fiz com que um édito fosse aprovado pelos senhores da propriedade, alertando que qualquer pessoa que, dali em diante, fosse para aquele lugar por qualquer motivo desse tipo, estaria sujeita a ter seus bens confiscados e depois vendidos."

    Tal prática venceu a proibição eclesial e foi praticada até o século XX.



Fontes:

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Análise literária - A Volta ao Mundo em 80 dias

    O aprendizado histórico vai além da análise de documentos, livros didáticos, materiais especializados etc. Estudar História compreende também analisar obras - ficção ou não - pois elas refletem o período em que foram confeccionadas, mesmo involuntariamente. Hoje a análise é de uma produção literária clássica de ficção e aventura que influenciou várias obras subsequentes: A Volta ao Mundo em 80 Dias (Le tour du monde en quatre-vingts jours) do francês Júlio Verne, em 1873. 

    A Obra
Edição da Tricaju - 2021

    
    O livro narra a excursão de Phileas Fogg - um excêntrico cavalheiro britânico - e seu ajudante - o francês Passepartout - ao redor do mundo. Tal empreendimento teve início numa aposta que Fogg fez com seus amigos do Reform Club de Londres ao tentar definir qual era o tempo mínimo que um homem levaria para dar a volta ao mundo tomando os meios de transporte disponíveis à época.
    Sua jornada começa na Inglaterra, partindo para a França, depois a Itália, o Egito, a Índia, a China, o Japão, os Estados Unidos, a Irlanda e, finalmente de volta à Inglaterra. Sempre acompanhado de Passepartout e perseguido pelo detetive Fix por uma acusação de roubo(!) Fogg enfrenta vários desafios e até encontra o amor. Ao redor do mundo, Phileas Fogg não se deixou abalar pelos imprevistos que surgiram em seu caminho. Ele usou sua fortuna para resolver todos os problemas que ameaçavam atrasar sua viagem. Precisava de um meio de transporte? Ele comprava um elefante. Precisava de um navio a vapor? Ele comprava do capitão. Precisava chegar rápido? Ele subornava os engenheiros. Mesmo no final do século 19, o dinheiro ainda podia solucionar todas as suas dificuldades.
    Para capturar o contexto em que a obra se insere é necessário entender um pouco sobre a Era Vitoriana, período em que se passa a trama.
     
A Época da Rainha ou O Sol por testemunha
                                                   
    Alexandrina Vitória foi coroada em 1837, e seu reinado durou longos e prósperos 63 anos. Comandou a expansão do império britânico, que atingiu seu auge durante seu reinado, com a anexação de grandes áreas da África, Ásia e Pacífico. Ela também foi uma líder importante no desenvolvimento da economia industrial da Grã-Bretanha, que tornou-se a maior do mundo durante sua era.
        Vitória não foi apenas uma líder política e econômica, mas também uma influenciadora cultural que moldou os costumes e as tradições de sua época. Ela lançou a moda vitoriana, marcada por vestidos longos, espartilhos, chapéus e luvas, que expressavam elegância e recato. Ela também difundiu a prática de decorar árvores de Natal, que mais tarde se tornou um símbolo da celebração natalina em todo o mundo. Além disso, ela foi uma grande patrona das artes e das ciências, apoiando escritores, pintores, músicos e inventores que revolucionaram suas áreas de atuação como a literatura, a arte, a música e a ciência. Entre os artistas que contaram com seu patrocínio estavam Charles Dickens, o criador de clássicos como Oliver Twist e Um Conto de Natal; Lewis Carroll, o autor de Alice no País das Maravilhas; Alfred Tennyson, o poeta laureado da Inglaterra; e Charles Darwin, o pai da teoria da evolução.

Império Britânico - 1886
   Durante o século XIX, o Império Britânico alcançou uma dimensão global, dominando vastas áreas da Ásia, África, América e Oceania. Sob o reinado de Vitória, a Grã-Bretanha se tornou a maior potência mundial, com uma influência política, econômica e cultural sem precedentes. A frase “O Sol nunca se põe no Império Britânico” expressava a magnitude e a diversidade dos territórios britânicos, que abrangiam quase um quarto da superfície terrestre e cerca de um quinto da população mundial. Para garantir e ampliar seu império, os britânicos usaram de vários meios, desde a diplomacia e o comércio até a guerra e a repressão. Alguns exemplos de conflitos envolvendo o império britânico foram a Guerra do Ópio contra a China, a Guerra da Crimeia contra a Rússia e as rebeliões dos Cipaios na Índia e dos Taipings na China. O império britânico também se beneficiou dos avanços tecnológicos da Primeira Revolução Industrial, que permitiram o desenvolvimento de novos meios de transporte, como as ferrovias, os barcos a vapor e o metrô. Esses meios facilitaram a comunicação, o transporte de pessoas e mercadorias e a integração das diferentes regiões do império.

Aventura Histórica
Rota do Sr. Fogg
    
Valendo-se de todo o aparato tecnológico herdado das 1ª e 2ª Revolução Industrial, nosso protagonista parte em desabalada corrida para vencer a aposta feita no clube de cavalheiros. Algumas passagens são memoráveis:
  • na passagem pela Índia salvaram a jovem viúva Aouda de ser queimada viva em uma cerimônia de sati, e a levaram consigo. Em Allahabad, eles pegaram o trem para Calcutá, mas foram presos por terem entrado em um templo hindu;
  • no Japão, eles testemunharam uma apresentação de circo, onde Passepartout se disfarçou de macaco para escapar de seus captores;
  • nos EUA eles enfrentaram vários obstáculos, como um ataque de índios, uma avalanche de neve, uma ponte quebrada e um motim;
  • o final com seu suspense;
    A empreitada do lorde inglês se torna ainda mais interessante quando sabemos que foi reproduzida no mundo real ainda no século XIX! A jornalista pioneira em jornalismo investigativo Elizabeth Jane Cochrane - usando o pseudônimo de Nellie Bly -  fez sua viagem ao redor do globo em apenas 72 dias, partindo de Nova Jersey em direção leste para cobrir uma matéria jornalística do New York World.

Nellie Bly


    O enredo de A Volta ao Mundo em 80 Dias apresenta uma leitura fácil, pontuada por capítulos pequenos (o que ajuda bastante quando se tem um curto período disponível para leitura) e momentos de tensão. Ao longo da história, o autor Júlio Verne apresenta uma visão interessante sobre as diferentes culturas e modos de vida em cada lugar visitado por Fogg. Somos levados a conhecer aspectos da sociedade em diferentes partes do mundo com diferentes culturas pela ótica da época em que o livro foi escrito. É importante lembrar que a maioria das tecnologias não era acessível ao grande público, o que só tornou a leitura mais instigante na época. Exigindo muita coragem, determinação e libras esterlinas - então padrão monetário internacional - o livro é um deleite para quem gosta de aventura e referências históricas.