sábado, 21 de setembro de 2024

Garotas do Rádio: tragédia na ponta da língua



Tragédias radioativas

    Quando falamos de acidentes radioativos, logo vêm à mente tragédias como Chernobyl, Fukushima ou até mesmo o acidente de Goiânia. Essas catástrofes, marcadas por suas consequências devastadoras, dominaram a narrativa sobre segurança nuclear. No entanto, existe um episódio menos conhecido, que ocorreu em Nova Jersey e que merece nossa atenção. Em 1924, a cidade de Orange foi palco de um incidente que passou despercebido por muitos.

Radiação para todos

    No início do século XX, o uso de elementos radioativos começaram a ganhar popularidade em diversas áreas da vida cotidiana, impulsionado pela curiosidade científica e pela crença em seus benefícios. O Rádio, em particular, foi considerado como matriz da vida, remédio milagroso ou princípio ativo na beleza foi comercializado livremente pois não existiam estudos e amplamente utilizado em produtos de consumo como cosméticos, remédios e tintas. Tudo isso abraçado com o pensamento científico transformador da época e a estética do período.
    Os efeitos danosos da radiação só seriam finalmente levados à tona no início da década de 1930. Antes disso, no entanto…

Mulheres no trabalho

    O movimento das mulheres que ingressaram nas fábricas americanas foi um marco significativo na luta por igualdade de gênero e direitos trabalhistas. Com a crescente demanda por mão de obra durante a Revolução Industrial e, especialmente, durante a Primeira Guerra Mundial, milhares de mulheres deixaram suas casas para trabalhar em ambientes industriais, desafiando normas sociais que tradicionalmente restringiam seu papel à esfera doméstica. Essas mulheres, muitas vezes chamadas de "trabalhadoras de guerra," não apenas contribuíram para a economia, mas também se tornaram pioneiras na busca por melhores condições de trabalho, salários justos e direitos laborais. O impacto desse movimento foi profundo, gerando um aumento na conscientização sobre a importância da igualdade de gênero e ajudando a pavimentar o caminho para futuras conquistas no âmbito dos direitos das mulheres.

Relógios brilhantes

Pintoras em uma fábrica -  United States Radium Corporation 1922 


    Foram contratadas mulheres jovens para pintar instrumentos como relógios, bússolas e mostradores, devido às suas mãos pequenas e habilidades manuais adequadas para o trabalho. No auge da indústria de mostradores radioativos, no início da década de 1920, cerca de 2.000 mulheres estavam empregadas, principalmente em fábricas nos Estados Unidos. Uma das empresas que utilizava mão de obra feminina era a United States Radium Corporation (USRC), localizada na cidade de Orange, Nova Jersey, que se especializava na produção de mostradores de relógio e tintas radio-luminescentes. A tinta utilizada, chamada Undark, era composta de sulfato de zinco e rádio, e brilhava no escuro em condições de pouca luz, sem precisar de uma fonte externa de energia. Era uma boa oportunidade para as mulheres, oferecendo trabalho, salários relativamente altos, status social por trabalhar com o "milagre radioativo" e emancipação feminina.

Negligência

    Com a falsa garantia de que as tintas eram inofensivas devido à suposta baixa quantidade de radiação, praticamente nenhuma medida de segurança foi adotada. Enquanto os homens na fábrica usavam aventais de chumbo, sob a justificativa de que manuseavam maiores quantidades de material radioativo, as trabalhadoras eram incentivadas a lamber a ponta dos pincéis para garantir a precisão e aumentar a produtividade. Essa prática resultou na ingestão contínua de material radioativo, levando a um efeito cumulativo. Um dos efeitos visíveis era que as próprias garotas brilhavam no escuro com seus dentes, pele, cabelos e roupas apresentando um brilho esverdeado.
    A primeira "Radium Girl" a apresentar sintomas de contaminação radioativa foi Martha Mollie Maggia. Em 1922, ela começou a sentir os efeitos adversos da exposição ao rádio, incluindo dor intensa nos dentes e mandíbula. Os sintomas se agravaram com o tempo, e, em 1925, McNair foi diagnosticada com osteonecrose, uma condição que causa a morte do tecido ósseo, muitas vezes devido à radiação.

Desintegração

Mandíbula de Mollie Maggia


    Após algumas semanas, Mollie retornou ao dentista para extrair o dente ao lado do que já havia sido removido. Nenhuma ferida havia sarado, mas crescendo juntas, vazando sangue e pus. Mais extrações foram necessárias. Em maio, o dentista identificou a necessidade de cirurgia para remover um abscesso de crescimento rápido em sua mandíbula. Ao abrir as gengivas, ele notou que o osso estava anormalmente acinzentado. Para sua surpresa, o osso se desintegrou sob seu toque, e ele acabou removendo o maxilar esquerdo inteiro de Mollie. Em setembro de 1922, ela veio a óbito.
    Mollie não foi a única "Radium Girl" a sofrer os efeitos da radiação. O rádio penetrava facilmente nas gengivas e entrava na corrente sanguínea, resultando em diversos sintomas estranhos entre as trabalhadoras. Uma delas sofreu colapso das vértebras, enquanto outras desenvolveram câncer de pele, catarata, câncer de garganta, além de sintomas como dentes soltos e perda de cabelo devido à exposição prolongada à radiação.
    A morte de Mollie foi atribuída à sífilis pela empresa.

Batalha judicial



    Em 1925 o patologista americano Harrison Martland estudou o caso provando a conexão entre o trabalho das mulheres e suas doenças. Após a exumação do cadáver de Mollie concluiu-se que não havia sinal de sífilis e a causa de sua morte era por conta da radiação. Resultados semelhantes foram encontrados em outras "Radium Girls" que faleceram, e, finalmente, a USRC foi à falência devido aos altos custos médicos e judiciais.
    O caso foi liderado por Raymond H. Berry, um jovem advogado recém-formado em Harvard, e ganhou destaque internacional. Embora as mulheres, com poucos meses de vida, tenham aceitado um acordo fora do tribunal, o processo trouxe grandes repercussões, resultando em melhorias nas leis de segurança dos trabalhadores em Nova Jersey e conscientizando os pintores de mostradores em todo o país sobre os perigos da radiação.

Legado

Artigo apresentando Catherine demonstrando como apontava o pincel com os lábios - 1938


    Inspiradas pelo caso das "Radium Girls" de Nova Jersey, as trabalhadoras da fábrica de Ottawa, também expostas ao rádio, começaram a desenvolver sintomas similares de envenenamento por radiação, como perda de dentes, deterioração dos ossos e câncer e uma das figuras mais notáveis desse caso foi Catherine Donohue, uma das pintoras de mostradores em Ottawa, que processou a Radium Dial Company em 1938. Apesar de estar gravemente doente, ela testemunhou no tribunal contra a empresa. O caso de Donohue e suas colegas seguiu um padrão semelhante ao dos processos anteriores: a empresa inicialmente negou a responsabilidade e desacreditou as alegações das trabalhadoras. No entanto, à medida que mais mulheres adoeciam e as evidências científicas sobre os perigos da radiação se fortaleciam, as trabalhadoras de Ottawa conseguiram uma vitória na justiça.
    O legado dessas trabalhadoras impactou tanto a legislação trabalhista quanto os direitos humanos, deixando uma marca importante na história da proteção dos trabalhadores e na regulamentação industrial como regulamentações mais rígidas em relação aos equipamentos de proteção do trabalhador da indústria, avanços nas ciências médicas, alteração na legislação trabalhista e principalmente na conscientização sobre os riscos da radiação.

Fontes:


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